Imagine a seguinte cena.
No trabalho, um subordinado estrangeiro vai carimbar um documento com o hanko, mas fica atrapalhado porque não sabe qual lado é o de cima. Aí ele comenta, num tom bem tranquilo: "Não seria mais fácil usar se a gente fizesse uma marquinha pra saber qual é o lado de cima?"
Você fica meio incomodado. O hanko representa a própria pessoa, e ele quer colocar uma marca nisso? Parece o mesmo que escrever "este é o lado direito" no corpo de alguém. 😶
Na verdade, essa história foi postada de verdade em um fórum estrangeiro. Quem postou foi o lado estrangeiro, alguém que trabalha no Japão. Ele ficou surpreso com a reação do chefe e chegou a escrever uma dúvida: "Se o hanko é tratado com tanto cuidado, por que o tempo dos funcionários não é?"
Não quero decidir quem está certo. O que achei interessante nessa história é que os dois estavam enxergando significados completamente diferentes no mesmo hanko.

Para o chefe, o hanko era o nome da pessoa, a responsabilidade dela e algo que substitui um compromisso. Por isso, "vamos fazer uma marquinha" não soou como uma melhoria na ferramenta, e sim como rabiscar o nome de alguém.
Já para o subordinado, o hanko era só um material de escritório. Uma ferramenta usada no lugar da assinatura e que, se for difícil de usar, pode ser melhorada. Zero má intenção. Pelo contrário, ele achou que estava ajudando.
Ou seja, ninguém foi mal-educado. Eles só estavam enxergando significados diferentes.
Eu também já vivi coisas parecidas várias vezes com amigos estrangeiros. O jeito de entregar uma lembrancinha de viagem, a frase de encerramento de um e-mail, a ordem dos lugares em uma confraternização. Aquilo que para mim era "óbvio", a outra pessoa pergunta com toda a sinceridade: "Por quê?". E nesse momento bate uma irritação. Mas, pensando com calma, a irritação vem de eu ter me sentido "negado", sendo que muitas vezes a pessoa nem estava negando nada. 🤔
Aliás, até entre japoneses a forma de encarar o hanko varia bastante. Tem quem dê muito valor e tem quem, sinceramente, ache um saco. Nos trâmites administrativos também avançou o movimento para eliminar a exigência do carimbo, então não dá para generalizar dizendo que "todo japonês pensa assim".
O importante aqui é que o significado não é visível.
O formato do hanko e o jeito de carimbar dá para ver. Mas o significado de "isto representa uma pessoa, então tratamos com cuidado" só é transmitido se alguém colocar em palavras. Quem cresceu no Japão simplesmente aprendeu isso pelo clima, sem ninguém explicar.
Por isso, se a sugestão de alguém te incomodar, a dica é tentar colocar o "significado" em palavras antes de se irritar. Por exemplo:
O segredo é não negar a ideia da outra pessoa e sim acrescentar o significado que você enxerga. Se você diz "isso é falta de educação", a pessoa se retrai. Mas se você diz "isso tem tal significado", ela consegue aprender.
Quando você trabalha com colegas estrangeiros, às vezes acaba no papel inverso também. Você acha que fez uma sugestão racional, mas acaba tocando em algo que a cultura da outra pessoa valoriza.
Ou então, conversando com um amigo estrangeiro, quase solta um "isso faz algum sentido?" sobre um costume dele. Sinceramente, eu já dei essa mancada algumas vezes. 😅
Nessas horas, o caminho mais seguro é perguntar o "significado" antes de sugerir qualquer coisa.
Quando alguém ouve "por que você não faz uma marquinha?", acaba assumindo o papel de quem defende a tradição. Mas se ouve "como você sabe qual é o lado de cima?", pode assumir o papel de quem ensina. A mesma dúvida muda a conversa dependendo de como você pergunta.

Aquele post tinha mais uma pergunta importante: "Se o hanko é valorizado porque representa a pessoa, por que é considerado normal que o tempo dessa mesma pessoa seja sacrificado pela empresa?"
Para quem trabalha no Japão, essa pergunta deve causar um certo frio na barriga. Chegar antes do horário virou regra implícita, ou fica difícil ir embora antes do chefe.
Eu acho um desperdício descartar isso como "reclamação de estrangeiro". Justamente por ser um olhar de fora, ele nos faz perceber coisas que, de tão óbvias, a gente deixou de enxergar. O estranhamento também pode ser uma pista para repensar o ambiente de trabalho.
Se você for chefe ou a pessoa que coordena a equipe, uma frase como estas pode mudar a relação:
Para questões concretas, como a forma de contar as horas de trabalho, o mais seguro é confirmar com o setor responsável da empresa ou com canais de atendimento como a Inspetoria de Normas Trabalhistas (Rōdō Kijun Kantokusho). O importante, acho eu, é o ponto de vista de que uma cultura que valoriza o "significado" das coisas também pode valorizar o significado do tempo das pessoas.

Você já reagiu e o clima ficou meio esquisito. Tudo bem. Quanto antes você tentar consertar, mais simples fica.
São três dicas: reconhecer a sua reação, explicar o significado e acolher a intenção da outra pessoa. Por exemplo, uma mensagem assim:
"Desculpa, falei de um jeito meio duro agora há pouco. É que eu sinto o hanko quase como o meu próprio nome, e reagi no impulso. Eu sei que você estava pensando em deixar ele mais fácil de usar, e agradeço por isso."
Se a pessoa ainda não está acostumada com o japonês, pode ser bem mais curto:
"Desculpa por agora há pouco. O hanko é uma coisa importante no Japão, então eu só me assustei. Obrigado pela ideia."
E se foi você quem deixou a outra pessoa chateada:
"Peço desculpas pelo que eu disse agora há pouco, fui indelicado. Eu não sabia que tinha esse significado. Que bom que você me explicou."
Não precisa ser um keigo perfeito. O importante é os dois confirmarem que ninguém teve má intenção. Só isso já ajuda a relação a se transformar em uma em que, daqui para frente, vocês "perguntam o significado" um para o outro. ✨
Sinceramente, fazer esse tipo de conversa direto no trabalho, para valer, não é fácil. Tem hierarquia, tem a preocupação com a avaliação. Muitas vezes não sobra calma para escolher as palavras.
Por isso eu acho que o melhor treino é ter, fora do trabalho, "amigos com quem você possa falar de diferenças culturais sem pressão". Gente com quem você possa conversar sobre "no Japão é assim, e no seu país?" ou "ué, isso é falta de educação?" sem nenhum interesse em jogo. Acumulando esse tipo de conversa, quando você esbarrar num desencontro de significados no trabalho, vai conseguir pensar "por quê?" antes de se irritar. 😊
Esse é um dos motivos pelos quais criamos o SewaYou. O SewaYou é um app de fazer amigos em que, pelo mapa, você se conecta tanto com pessoas perto de você quanto com pessoas do mundo todo. Mesmo sem planos de viagem, você pode fazer amizade online, de casa, com pessoas que moram em outras cidades e países, se conectar com moradores locais antes de viajar e também encontrar pessoalmente quem estiver por perto.
Se você puxar o assunto do hanko com um amigo estrangeiro, talvez receba uma reação inesperada. Ou, ao contrário, talvez você se surpreenda ao ouvir o que é "óbvio" no país dele. Essas pequenas surpresas, somadas, deixam a comunicação intercultural no trabalho muito mais leve.
Colocar ou não uma marquinha no hanko provavelmente não é um grande problema. O problema de verdade é duas pessoas que enxergam significados diferentes na mesma coisa acabarem num clima estranho sem perceber isso.
O significado que você valoriza, coloque em palavras e explique. Se estranhar um costume de alguém, pergunte o significado antes de tentar mudar. E se rolar um atrito, conserte logo com uma palavrinha.
E crie também, fora do trabalho, amizades com quem você possa conversar e rir das diferenças culturais. Seja na vizinhança, seja em qualquer lugar do mundo. Baixe o SewaYou e comece conversando com uma pessoa. 🌏