Ver a criança indo para a escola com a randoseru novinha e brilhando nas costas dá vontade de chorar. Mas, depois de uma semana de aulas, dá vontade de chorar por outro motivo 😅
Assinar o cartão de leitura em voz alta, corrigir a folhinha de hiragana, conferir o caderno de recados, encarar a pilha de comunicados da escola. O "Já olhou a lição?" de toda noite pesa muito mais do que a gente imaginava.
Isso já é cansativo até para famílias em que todo mundo fala japonês como língua materna. E pode ser que, na mesma turma, haja pais passando por um aperto ainda maior.

Num fórum estrangeiro, uma mãe de outro país, com o filho numa escola primária japonesa, contou uma coisa assim: mesmo tendo passado no N2 do Exame de Proficiência em Língua Japonesa, aparecem palavras que ela não entende no livro do 1º ano. Quando perguntou ao marido japonês, ele respondeu: "Muitas dessas palavras eram bem usadas antigamente, mas hoje quase ninguém usa".
Lendo isso, levei um susto. Até para a gente, que é japonês, o livro das crianças tem seus "hein?", né? Onomatopeias, nomes de plantas e bichos, expressões que quase ninguém fala no dia a dia.
Além disso, o sistema da escola funciona, em parte, partindo do princípio de que alguém em casa vai acompanhar a criança todo dia. Ouvir a leitura, corrigir os exercícios, conferir o material. Mais do que o japonês do adulto, o que pesa é o tempo diário.
Acompanhar tudo com perfeição, morrendo de cansaço toda noite, não dá. Nas famílias que conheço e que conseguem manter o ritmo, o esquema costuma ser mais ou menos este:
O objetivo é o hábito, não a resposta certa. Se a criança está lendo um pouquinho a cada dia, já está ótimo.

O que me marcou no relato daquela mãe não foi tanto a leitura em si, mas a vontade de saber como as outras famílias davam conta de tudo.
Na prática, o que mais costuma complicar a vida das famílias com raízes em outros países não é a lição de casa, e sim os "combinados que ninguém fala" da escola. "O uniforme de educação física vai na segunda-feira", "nesse evento todo mundo faz o bentô em casa", "esse comunicado não é tão importante assim". Com um aplicativo de tradução dá para ler as palavras, mas não dá para pegar esse tipo de nuance.
Quem tem essas respostas são os outros pais ali do lado. Bastam algumas palavras de um pai ou mãe japonês para que a criança passe muito menos aperto por ter esquecido alguma coisa.
Mesmo assim, chegar falando do nada deixa os dois lados nervosos, né? O segredo é ser breve, falar devagar e colocar uma ideia só em cada frase. Evitar o keigo mais difícil e os jeitos indiretos de falar ajuda bastante a se fazer entender.
Por exemplo, mensagens assim:
Essa última é bem importante. Quando você não fala só do que precisa ser feito, mas também conta que "aqui em casa também é difícil", a outra pessoa sente que tudo bem perguntar.
Também pode acontecer de a pessoa falar japonês, mas ter dificuldade para ler. Antes de mandar mensagem, vale perguntar: "Para você, é mais fácil pelo LINE ou conversando?". E aprender pelo menos um "olá" na língua do país dela já aproxima muito vocês 😊

A gente costuma se ver como "quem ensina", mas muitas vezes quem sai ajudado somos nós. Quando começa a lição de inglês, nas conversas sobre festas e comidas de outros países, num outro olhar sobre a criação dos filhos. A conexão com pais estrangeiros também pode abrir o mundo para as crianças.
E o sufoco do 1º ano é igual para todo mundo. Só de ter alguém com quem trocar os prazos dos comunicados ou perguntar "até onde era a leitura de hoje mesmo?", o cansaço da noite fica bem mais leve. Montar um jeito de não carregar tudo sozinho talvez seja a melhor estratégia para a lição de casa.
Ter adultos com quem conversar fora da escola também faz diferença, né? Às vezes as associações de intercâmbio internacional da região ou os centros comunitários organizam eventos para famílias estrangeiras. Se ficou com vontade, dê uma olhada no site da prefeitura da sua cidade.
Outra opção é o SewaYou, o app que a gente criou. O SewaYou é um aplicativo de fazer amizades baseado em mapa, em que você encontra amigos tanto na sua vizinhança quanto no mundo inteiro. Dá para se conectar com estrangeiros e japoneses que moram perto, conversar sobre criação dos filhos ou fazer intercâmbio de idiomas. Sem sair de casa, você pode explorar outras cidades e outros países e fazer amigos online, ou se conectar com pessoas de um lugar antes de viajar e se encontrar quando estiver por perto.
Claro que é um app para amizades entre adultos. Outros pais da vizinhança, amigos para dar risada juntos dos comunicados da escola, gente que conta como é criar filhos em outros países. Esse tipo de conexão com certeza deixa o dia a dia um pouco mais leve.

Ensinar a matéria é trabalho dos professores da escola. O papel dos pais é sentar do lado, ouvir e, quando aperta, perguntar para alguém. Isso vale para quem fala bem japonês e para quem ainda tem dificuldade.
Que tal amanhã de manhã dizer só umas palavrinhas para aquele pai ou mãe que você sempre vê no portão da escola?
Se bater vontade de ter amigos adultos para conversar de um jeito mais tranquilo, dá uma olhada no SewaYou. Na sua vizinhança e até do outro lado do mundo, com certeza tem gente com quem você vai se dar bem 🌏